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sábado, 6 de abril de 2013

BC do Japão ousa para aquecer economia


O Banco do Japão conseguiu surpreender na primeira reunião sob o comando de Haruhiko Kuroda. Surpreendeu não pelo anúncio de um programa agressivo de flexibilização monetária (possivelmente maior que o do Federal Reserve e do Banco da Inglaterra em proporção do PIB), mas pela vasta amplitude das medidas. O objetivo é tirar o país do quadro deflacionário perene dos últimos 15 anos e, como efeito colateral, induzir a desvalorização do iene de modo a impulsionar a atividade econômica.

A maior novidade, sem dúvida, foi o estabelecimento de uma meta para a expansão da base monetária, que será dobrada nos próximos dois anos. "Para atingir esse objetivo, o banco entrará em uma nova fase de afrouxamento monetário, em termos quantitativos e qualitativos", diz o comunicado da decisão. Em dois anos, portanto, o BC japonês pretende não apenas atingir a meta de 2% para a inflação e dobrar a base monetária, mas também dobrar o volume de títulos soberanos (JGBs) e ativos arriscados (ETFs) em seu balanço e "mais que dobrar" a maturidade mínima das compras remanescentes de JGBs.

A base monetária, que era de 138 trilhões de ienes em 2012, deve saltar para 200 trilhões em 2013 e 270 trilhões em 2014. Sob as novas regras, o BoJ deixará de ter como meta de suas operações no "money market" a taxa overnight e passará a focar a expansão da base monetária. O volume da base se expandirá a um passo anual de 60 trilhões a 70 trilhões de ienes.

Para se ter uma ideia do tamanho dessa desejada expansão, o volume da base monetária representava 28% do PIB em 2012 e subiria para 42% em 2013 e 55% em 2014, considerando as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). A expansão da base não está focada especificamente na moeda física, cujo volume sairia de 87 trilhões de ienes para apenas 90 trilhões de ienes, mas sim em moeda eletrônica, cujo montante seria multiplicado por quase quatro vezes, até 175 trilhões de ienes.

Como esperado pelo mercado, houve a suspensão temporária da "banknote rule", que atrelava aquisições de JGBs à quantidade de moeda em circulação. Com isso, o programa de compras é ampliado de 89 trilhões de ienes em 2012 para 190 trilhões em 2014. O passo mensal sobe para 7,5 trilhões de ienes (6,2 trilhões de ienes em abril).

O volume surpreende também na comparação com o PIB: em 2012 representava 13,8% e chegará a 29,5% em 2014, considerando as projeções do FMI. Esse volume adicional (101 trilhões de ienes) ultrapassa o déficit fiscal a ser acumulado em 2013 e 2014 (86 trilhões de ienes). A dívida bruta do país, projetada para encerrar o ano em 245% do PIB, deve, sem dúvida, sofrer um incremento considerável.

Outra medida foi a extensão da maturidade dos JGBs elegíveis às compras do BC, que era de até três anos e passou para 40 anos, acima da expectativa do mercado (em torno de cinco anos). Isso significa que toda a curva de rendimentos será pressionada para baixo, exatamente o desejo do banco central. Com isso, a maturidade média dos JGBs em posse do BC será estendida de pouco mais de três anos para aproximadamente sete anos.

O BC japonês também decidiu aumentar as compras de ativos arriscados - ETFs e fundos de investimento imobiliários (J-REITs) -, de modo que a quantidade desses papéis em seu balanço se expanda a um passo anual de 1 trilhão de ienes e 30 bilhões de ienes, respectivamente. As aquisições de "commercial papers" e bônus corporativos serão expandidas até que atinjam o volume de 2,2 trilhões e 3,2 trilhões de ienes, respectivamente. A partir de então, o montante será mantido estável.

Segundo o Nomura, o aspecto mais importante das medidas anunciadas foi a mudança da meta nas operações de "money market" para a expansão da base monetária. "Acreditamos que a meta será mais especificamente o balanço dos depósitos em conta corrente do BC", em linha com o programa de afrouxamento feito entre 2001 e 2006. A principal diferença desta vez é que os ativos adquiridos pelo BoJ incluem não apenas JGBs de curto prazo, mas também de longo e ativos mais arriscados. Outra particularidade é que desta vez as metas para o volume de aquisição dos ativos são individuais, ou seja, foram especificadas para cada classe de ativos.

O resultado desta mudança, para o Nomura, é que este afrouxamento monetário terá um impacto maior, do ponto de vista da gama de ativos e mercados, do que se viu em experiências anteriores. Resta saber o quão relevante será o impacto sobre a moeda, sobre as tradicionais operações de "carry trade" e, de resto, sobre a economia japonesa.

Fonte: Valor